O tatu-canastra (Priodontes maximus) compartilha um ancestral comum com os extintos gliptodontes dentro da ordem Cingulata. Estes últimos desenvolveram gigantismo e uma couraça completa, chegando a até quatro metros de comprimento e uma tonelada e meia de peso — dimensões que, embora imponentes, não os isentam da predação por superpredadores do Pleistoceno, como o tigre-dente-de-sabre (Smilodon populator), o urso-de-cara-curta gigante (Arctotherium angustidens) e grandes felinos semelhantes à onça-pintada. O P. maximus, por sua vez, manteve um porte considerável — até 1,6 metro e mais de cinquenta quilos —, mas evoluiu uma carapaça segmentada e flexível, hábitos escavadores ativos e uma dieta mirmecófaga. Atualmente, seus principais predadores naturais são a onça-pintada (Panthera onca) e o puma (Puma concolor), embora a pressão humana — por meio da caça e da perda de habitat — represente sua maior ameaça. Estudos morfológicos e genéticos confirmam que os gliptodontes formam um clado derivado dos tatus modernos, posicionando o P. maximus entre seus parentes vivos mais próximos. Sua sobrevivência à extinção do Pleistoceno se deve à flexibilidade trófica, à atividade noturna e ao uso de tocas — características que seguem sendo determinantes para evitar predadores e resistir às pressões antrópicas atuais.
Especialista, mas adaptável, o tatu-canastra baseia cerca de noventa por cento de sua dieta em formigas e cupins, embora ocasionalmente incorpore pequenos vertebrados, ovos, raízes ou frutos caídos. Para obter alimento, conta com adaptações excepcionais: garras anteriores hipertrofiadas — especialmente a terceira, que pode ultrapassar quinze centímetros e romper cupinzeiros endurecidos como cimento ou despedaçar troncos em decomposição; uma língua cilíndrica, musculosa e recoberta por muco, capaz de se estender por até sessenta centímetros e se projetar rapidamente em túneis estreitos; e papilas cônicas associadas a uma saliva viscosa que funcionam como uma escova, capturando centenas de insetos a cada inserção. Em condições ideais, pode capturar mais de cinquenta mil insetos em uma única noite — uma eficiência energética essencial para um animal de grande porte com dieta especializada. Essa combinação de força, alcance e precisão permite a alimentação mesmo em períodos adversos, e a capacidade de incluir itens ocasionais fora da dieta principal tem sido fundamental para sua persistência ao longo de milhares de anos de mudanças climáticas e pressão humana.
As tocas do Priodontes maximus são estruturas subterrâneas elípticas, com trinta a quarenta e cinco centímetros de diâmetro, túneis de três a cinco metros de comprimento e até um metro e meio de profundidade, que terminam em câmaras de descanso com temperatura e umidade estáveis. Sua orientação minimiza a exposição solar, otimiza a ventilação e reduz o risco de alagamento. A escavação, realizada com garras anteriores hipertrofiadas, pode deslocar até duzentos quilos de solo em uma única noite, formando montes característicos na entrada. Esses abrigos, utilizados por décadas, são reutilizados por mais de setenta espécies de vertebrados e invertebrados, atuando como microclimas em áreas secas e refúgios elevados em planícies alagáveis. Na Reserva Guayabero Cocodrilo, armadilhas fotográficas registraram seu uso por roedores, gambás, tamanduás-mirins, iraras, cutias, Tupinambis teguixin e outros pequenos mamíferos, confirmando o papel do tatu-canastra como um engenheiro-chave do ecossistema.
O tatu-canastra apresenta uma das menores taxas reprodutivas entre os grandes mamíferos, com apenas um filhote por gestação, após cerca de cento e vinte dias, geralmente iniciada no começo da estação chuvosa. Sua densidade populacional, inferior a 0,4 indivíduo por quilômetro quadrado, combinada à necessidade de vastos habitats contínuos, limita o fluxo gênico e aumenta o risco de extinções locais. Classificado como Vulnerável pela IUCN, enfrenta ameaças como a perda e fragmentação de habitat, a caça ilegal e a baixa produtividade reprodutiva. Na Reserva Guayabero Cocodrilo, em La Macarena, Meta, foi registrado no setor alto e rochoso, caracterizado por solos bem drenados e pedregosos e baixa cobertura arbórea; durante a estação chuvosa, migra de áreas baixas alagáveis para escavar tocas que permanecem ativas por semanas ou meses.
O monitoramento do P. maximus vai além da pesquisa: trata-se de uma ferramenta direta de conservação. Cada toca registrada fornece informações-chave sobre sua ecologia — dos padrões de abrigo às áreas críticas para a sobrevivência — e permite o desenho de planos de manejo e restauração mais eficazes, o fortalecimento de áreas protegidas e a sensibilização das comunidades sobre a importância de conservar esse gigante subterrâneo. Em um contexto de desaparecimento acelerado de grandes mamíferos, proteger o Priodontes maximus significa salvaguardar um capítulo singular da história evolutiva da América do Sul e manter o equilíbrio funcional dos ecossistemas amazônicos.
Este artigo já foi publicado no site da Permian Global em 8 de dezembro de 2025. Acesse o original para uma leitura completa aqui.