Na RESEX do Rio Cautário, o guariba — também chamado de bugio vermelho ou macaco gritador — ajuda a contar a história da floresta e das comunidades que vivem dela. Conhecido pelo coro potente ao amanhecer e no entardecer, o grupo se faz ouvir a longas distâncias, com uma vocalização que ecoa entre as copas e marca presença no território. Esse som não é “de onça”; é de primata social, que organiza sua vida em bando e usa a própria floresta como abrigo, alimento e caminho.
Até pouco tempo, o bugio vermelho da Amazônia era tratado como uma única espécie com subespécies. Com revisões taxonômicas, parte dessas subespécies foi elevada à condição de espécie, e o guariba associado ao sudoeste amazônico passou a ser reconhecido como Alouatta puruensis. Esse primata ocorre entre grandes rios e áreas amplas que incluem Rondônia, além de porções do Acre, sul do Amazonas e noroeste de Mato Grosso, compondo o mosaico de vida que a RESEX do Rio Cautário protege no cotidiano.
O gênero Alouatta é reconhecido por uma característica marcante: a força da voz. Os machos dominantes conduzem o “canto” do grupo, mas outros indivíduos também participam do coro. Essa potência tem base anatômica: um osso específico na garganta, o hioide, amplia a ressonância e permite que o som se prolongue por minutos. Ao mesmo tempo, esse contraste chama atenção: apesar de vocalmente intensos, os bugios têm comportamento econômico em energia.
Como muitos primatas, são gregários. Os grupos variam de dois a 16 indivíduos, com média em torno de cinco a seis. Há dominância de um macho alfa e um sistema poligâmico: o macho dominante costuma ter precedência, mas há tentativas de acasalamento por machos jovens, e as fêmeas também podem se envolver com mais de um macho — ainda que a dinâmica do grupo imponha limites e disputas. A gestação dura seis meses e o intervalo entre nascimentos fica em torno de 16 meses, refletindo o tempo de cuidado com os filhotes.
O bugio vermelho é um animal de copa: desloca-se com calma, usando uma cauda preênsil que sustenta o corpo e dá segurança entre galhos. Em vez de grandes saltos, prefere trajetos com proximidade entre árvores. As fêmeas são menores, com comprimento (cabeça e corpo) entre 48 e 63 centímetros, e cauda que pode chegar a 80 centímetros. Os machos pesam em torno de 7,5 quilos, e as fêmeas cerca de 6 quilos. Predadores de copa — como grandes aves de rapina, a exemplo da harpia, e serpentes arborícolas de grande porte, como jiboias — podem atacar jovens e filhotes, enquanto adultos, especialmente machos, tendem a ser menos vulneráveis por tamanho e peso.
Na alimentação, o guariba se destaca por consumir folhas e frutos, com registros também de sementes e insetos. Essa dieta explica um padrão importante: passam cerca de 70% do tempo descansando. Mesmo assim, seu papel ecológico é claro. Ao consumir frutos, acabam dispersando sementes ao longo do deslocamento do grupo, contribuindo para a regeneração de plantas em diferentes pontos da floresta. Em alguns casos, a passagem das sementes pelo tubo digestivo ajuda a quebrar a dormência e favorece a germinação, o que reforça a relação direta entre fauna e renovação da vegetação.
O habitat preferencial do Alouatta puruensis inclui florestas sazonalmente alagadas, como várzeas e áreas próximas à água, embora a espécie também ocorra em florestas de terra firme. Essa preferência ajuda a explicar variações de abundância: em Rondônia, estudos preliminares indicam densidades relativamente baixas e bandos menores, enquanto em outras áreas amazônicas podem ocorrer grupos mais numerosos. Quando se considera espaço de vida, há estimativas de que um grupo possa depender de cerca de 50 hectares, o que torna a continuidade florestal um fator determinante para a manutenção de populações ao longo do tempo.
Nesse ponto, a maior ameaça relatada não é a caça, e sim a perda e fragmentação do habitat: desmatamento e descaracterização da paisagem reduzem conectividade, diminuem áreas adequadas e limitam a presença de bandos. A caça aparece como fator adicional em alguns contextos, inclusive associada a preferências alimentares de certas etnias e grupos tradicionais, o que pode tornar os animais mais ariscos e raros em determinadas regiões. Ainda assim, a pressão principal permanece ligada à integridade da floresta.
Outro aspecto relevante é a relação entre bugios e saúde pública. Primatas são vulneráveis a doenças transmitidas por mosquitos, e os bugios, por se moverem de forma mais lenta e permanecerem longos períodos em repouso, podem ser ainda mais expostos a picadas. Em surtos de febre amarela, por exemplo, os bugios podem adoecer e morrer, funcionando como sentinelas naturais da circulação do vírus em uma região. Eles não são vetores responsáveis por transmitir a doença a pessoas; são vítimas, como os humanos. A desinformação, no entanto, já levou à perseguição e morte de animais, o que reforça a importância de educação ambiental sensível ao território, capaz de dialogar com crenças populares sem estigmatizar espécies.
Na RESEX do Rio Cautário, contar a história do guariba é falar de conservação florestal com base em evidências do próprio ecossistema, conectando biodiversidade, saúde e modos de vida. O Projeto de Conservação da Natureza da RESEX do Rio Cautário fortalece essa visão ao valorizar a floresta em pé e a comunidade como parte ativa do cuidado do território. Essa abordagem se alinha a Soluções Baseadas na Natureza e amplia a credibilidade de iniciativas associadas ao mercado de carbono e ao financiamento climático, especialmente quando contemplam benefícios para a biodiversidade e o bem-estar local. Projetos de conservação da natureza importam porque sustentam serviços essenciais, asseguram continuidade de habitats e mantêm vivas as relações entre floresta, fauna e comunidade — como a voz do guariba, que segue marcando o ritmo da RESEX do Rio Cautário.
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