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by Kirsten Baillie Carlile, Gerente de Marketing

25/02/2026

Atuando no campo das soluções climáticas baseadas na natureza, fala-se com frequência que esse trabalho vai muito além de árvores e do carbono. No entanto, trabalhando do lado do mercado, lidando com unidades de carbono, essa ideia por vezes pode parecer distante e abstrata. Recentemente, porém, tive a oportunidade de visitar nosso projeto emblemático na Indonésia e constatar, de forma direta, que as árvores, embora importantes, são apenas parte de uma história muito maior.

O ponto de entrada para qualquer visita ao Projeto Katingan Mentaya é Sampit. Sampit é uma cidade em Kalimantan Central, na região indonésia de Bornéu. No passado, foi um importante porto madeireiro, antes de a madeira ceder espaço a outros setores. Hoje, é um centro vibrante e movimentado no distrito de East Kotawaringin.

O projeto está localizado logo após a travessia do rio Mentaya e abrange mais de 150.000 hectares de floresta de turfa, estendendo-se de norte a sul, entre os rios Mentaya e Katingan.

A área do projeto é dividida em seis zonas, cada uma supervisionada por um líder local que responde à equipe ampliada de gestão. Nessas zonas, há 39 vilas que firmaram Memorandos de Entendimento entre a comunidade e o projeto. Essas parcerias envolvem a proteção das áreas de floresta comunitária, a conservação dos recursos florestais locais e os serviços ambientais.

 

Mentaya Sweet

Fomos recebidos no aeroporto por colegas locais da Rimba Makmur Utama (PT RMU), parceira de projeto da Permian Global, para dar início a um roteiro intenso de quatro dias.

Nossa viagem começou em Sampit, com uma visita à sede da Mentaya Sweet e ao STA Marketplace. Conhecemos a fábrica e a cozinha de produção da Mentaya Sweet para entender como são produzidos o açúcar de coco e o ketchup de açúcar de coco, além do empacotamento de outros produtos, como castanhas de caju. O projeto apoiou o início da iniciativa como uma alternativa de geração de renda por meio da produção de açúcar de coco. O crescimento do negócio tem sido expressivo, permitindo a diversificação de produtos e o retorno dos lucros para a comunidade local.

Em seguida, fizemos uma breve parada no escritório da PT RMU para receber orientações sobre a etapa seguinte da viagem, mais imersiva na área do projeto. Dali, seguimos para o STA Marketplace, no centro da cidade, um ponto local de comercialização de produtos originados na área do projeto. Consegui comprar um mel local excelente — alguns dias depois, eu veria exatamente onde ele é produzido.

 

Subindo o rio

No dia seguinte, viajamos rio acima pelo Mentaya até a vila de Terangtang, na Zona Seranau. O chefe da região  nos recebeu com a exibição de uma dança tradicional de guerreiros e uma bênção cerimonial com o corte de bambu. Em seguida, fomos presenteados com um lenço e um cocar tradicionais, antes de assistirmos a uma apresentação emocionante realizada por quatro alunas da escola local.

Lá, encontramos membros da comunidade de Terangtang, incluindo agentes de saúde, professores e beneficiários do programa de educação não formal, grupos de jovens responsáveis pela gestão de resíduos e outros pequenos empreendimentos, como produtores de artesanato em ratan. Foi um encontro marcante, realizado na escola local, que contou uma história inspiradora sobre o sucesso do projeto e os impactos positivos no cotidiano da comunidade. O encontro terminou com uma rodada rápida de selfies.

 

Posto Central

De Terangtang, seguimos de barco para o sul até o Posto Central, localizado no Canal Central, que conecta os rios Mentaya e Katingan. A viagem durou algumas horas e ajudou a aliviar o cansaço devido à diferença de fuso horário.

Desembarcamos no Viveiro de Hantipan para conhecer as atividades de replantio em diferentes áreas do projeto. Uma passarela de madeira atravessa o viveiro e segue até o Posto Central. Ao longo do caminho, observamos as áreas demonstrativas manejadas pelas comunidades locais.

O Posto Central é cercado por árvores em diferentes estágios de crescimento, todas plantadas por visitantes ao longo dos últimos doze anos. Fui convidada a plantar uma árvore belangeran, relacionada à família Dipterocarpaceae, e, depois de quase cair em meio à turfa, consegui adicionar minha árvore ao bosque. É reconfortante saber que ela prospera, assim como o projeto que tem tanto significado para todos nós.

O Posto Central é também o ponto de partida para as trilhas suspensas na floresta e os transectos de pesquisa, permitindo a exploração segura do ecossistema de turfa. É um espaço educativo sobre o papel da turfa na conservação e oferece diversas oportunidades de observação da fauna. Tivemos a sorte de ver algumas aves, embora eu esperasse a visita de “John”, um orangotango residente que tem aparecido no acampamento nos últimos meses.

Recebemos uma apresentação detalhada sobre as atividades de mitigação e manejo do fogo no projeto e sobre os resultados positivos alcançados. A equipe também explicou como são feitas as análises da turfa para acompanhar a saúde do ecossistema. A turfa é um material extraordinário, não apenas pelo papel essencial que desempenha no enfrentamento da crise climática; o domo de turfa de Katingan cobre uma área imensa e pode atingir até treze metros de profundidade em alguns pontos, tendo levado dezenas de milhares de anos para se formar. Essa dimensão ajuda a compreender o quão breve é nossa presença diante da idade geológica desse ecossistema e a responsabilidade de cuidar dele.

 

Rio Katingan

O terceiro dia começou com um café da manhã memorável. Após uma foto do grupo, seguimos para o rio Katingan e para a Zona Mendawai. Nossa primeira parada foi no escritório da PT RMU em Kampung Melayu, onde encontramos o chefe da área e conversamos brevemente sobre as ações comunitárias na região, além de conhecer os equipamentos de combate a incêndios.

Fizemos um desvio para visitar a equipe de Florestas Sociais de Mendawai (LPDH Mendawai), um grupo premiado que se estabeleceu próximo ao rio Katingan, acessível por um canal estreito e raso. O LPDH Mendawai foi formado em 2022, após a assinatura de um Memorando de Entendimento entre a comunidade e o projeto. Esse apoio permitiu proteger a floresta contra ameaças como a exploração ilegal de madeira e os incêndios. A equipe explicou como o apoio do projeto possibilitou a revegetação da área, a construção de um posto de patrulha e a aquisição de um pequeno barco. Em 2023, o grupo foi reconhecido e indicado na categoria de equipes de combate a incêndios, em razão de seu êxito na prevenção do fogo. O encontro foi inspirador, embora breve, já que a redução do nível da água exigiu uma saída rápida.

De volta a águas mais profundas, seguimos para a Vila Mendawai, onde fomos recebidos por um grupo de empreendedoras que criaram seus negócios por meio de microcrédito apoiado pelo projeto. Eram mulheres fortes, orgulhosas, com histórias de sucesso que queriam compartilhar. Almoçamos com elas e ouvimos relatos cheios de otimismo sobre o futuro. Na saída, passamos por uma clínica de saúde ampliada com apoio do projeto.

Após mais uma hora de barco, chegamos ao Posto Bakumin, nosso local de descanso da noite. O posto funciona como ponto de armazenamento de equipamentos de combate a incêndios e base de monitoramento durante a estação seca. A equipe também atua no controle de outras atividades ilegais, como extração de madeira e caça. Localizado no lado leste da área do projeto, é um excelente ponto para observação da fauna, devido à abertura da vegetação.

Uma das maiores ameaças ao projeto são os incêndios, razão pela qual a equipe dedica tanta atenção à prevenção e ao manejo do fogo. Não houve registros de incêndios na área do projeto nos últimos dois anos. A temporada de incêndios associada ao El Niño de 2015 na Indonésia foi uma das mais severas já registradas e afetou algumas áreas do projeto. A regeneração dessas áreas é inspiradora. Um membro da equipe relatou ter visitado regiões que seriam queimadas naquele período e descreveu uma floresta tão densa que mal se conseguia enxergar através dela. Era difícil imaginar, ao observar a floresta ainda jovem, mas reconfortante saber que, com o tempo, ela retornará ao seu estado anterior.

O posto era um lugar especial, um ecossistema vivo, cercado por canto de aves, mosquitos e água. Aproveitamos o momento para descansar, consumir alimentos locais e observar o pôr do sol naquele cenário singular.

Na manhã seguinte, retomamos os barcos para o último dia no rio Katingan. Fizemos outro desvio por um canal para conhecer algumas colmeias de onde é extraído o mel vendido no STA Marketplace. A coleta desse mel envolve riscos, e a equipe de Tampelas realiza esse trabalho com grande competência. Há um vídeo sobre eles no canal da PT RMU no YouTube.

Fomos recebidos pelo chefe da Zona Kamipang, que nos apresentou ao grupo responsável pela coleta do mel. A Vila Tampelas é relevante também por outros motivos. Conhecemos o sistema de painéis solares implantado com apoio do Projeto Katingan Mentaya. A iniciativa inclui ainda a construção de um salão comunitário para apoio durante enchentes, hospedagens para visitantes, estruturas de ecoturismo e uma fábrica de albumina, que irá gerar novos empregos e estimular mais investimentos na região.

Seguimos então para nosso destino final, a comunidade de Telaga. O chefe da zona nos acompanhou até o escritório local de campo do projeto, onde a equipe treina, planeja e armazena equipamentos de combate a incêndios. Como em vários momentos da viagem, reavivei uma lembrança da infância, quando cresci na África do Sul: um trajeto de motocicleta até a escola e o salão comunitário. Lá, fomos recebidos pelo líder da vila, autoridades tradicionais, grupos de agricultores, equipes de combate a incêndios e agentes de saúde. Conhecemos também um grupo de mulheres que produzem suplementos de saúde destinados à venda no STA Marketplace, em Sampit.

Nesse ponto, ficou claro o ciclo completo do projeto, ao encontrar grupos comunitários que estão plenamente engajados na proteção da floresta e percebem os benefícios de mantê-la em pé, além de desenvolverem diferentes atividades econômicas que geram renda para suas famílias e acesso ao mercado por meio do Projeto Katingan Mentaya.

Ao nos despedirmos do rio, da floresta e das comunidades, durante o trajeto até o aeroporto de Palangkaraya, o silêncio tomou conta do carro. Um momento de reflexão sobre o que os últimos quatro dias revelaram e ensinaram. Nunca estive tão fora da minha zona de conforto e, ao mesmo tempo, tão em paz. As lições e vivências dessa viagem foram profundamente transformadoras. Trabalho em um escritório em Londres, a meio mundo de distância, e nos últimos dez anos atuei com o Projeto Katingan Mentaya de forma remota. Ver de perto os resultados desse esforço foi marcante. Observar como o trabalho impacta diretamente o território, entre uma ampla equipe técnica, parceiros locais e comunidades que defendem projetos como este, reforça a percepção de que todos estão fazendo sua contribuição.

Olhando para o futuro, há entusiasmo com os próximos passos e com o avanço contínuo na proteção florestal e  enfrentamento das mudanças climáticas. Ainda há muito a ser feito, mas com a dedicação e o compromisso da equipe da Permian Global, há confiança de que o trabalho seguirá gerando impactos positivos.

Este artigo já foi publicado no site da Permian Global em 15 de dezembro de 2025. Convidamos à leitura do texto original aqui.

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