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by Jessé Burlamaque, especialista em GIS

30/07/2026

Um estudo publicado na revista Science of the Total Environment (Toledo et al., 2024)[1] mostra que a seca na Amazônia não termina quando a chuva volta. Depois de um El Niño, a bacia amazônica carrega um estresse hídrico que pode durar meses ou anos, mesmo com a precipitação já normalizada. Esse déficit hídrico, mais do que a falta de chuva em si, explica os piores anos de incêndio na região.

A publicação também destaca aspectos relevantes para a compreensão dos efeitos da sucessiva ocorrência deste evento ao longo do tempo:

 

Dois tipos de seca

O estudo separa dois conceitos que costumam ser tratados como sinônimos:

  • Seca meteorológica: redução na quantidade de chuva em um período. É medida pelo SPI (Índice Padronizado de Precipitação), que compara a chuva observada com a média histórica.
  • Seca hidrológica: redução na água efetivamente disponível no ambiente, ou seja, umidade do solo superficial, umidade na zona de raízes e nível da água subterrânea.

A seca meteorológica pode terminar em poucas semanas, assim que as chuvas se normalizam. A seca hidrológica, principalmente na camada de água subterrânea, pode continuar por um período mais longo.

 

Porque a água subterrânea demora a se recuperar

Entre 2004 e 2016, os pesquisadores registraram queda de umidade nas três camadas de solo analisadas. O comportamento, porém, foi diferente em cada uma.

A camada superficial reage rápido: seca com facilidade e se recupera assim que chove. A água subterrânea tem uma dinâmica mais lenta, sua recarga depende de um processo de infiltração demorado. Por isso ela demora para sentir a seca e demora ainda mais para se recuperar depois. A floresta pode seguir sob estresse hídrico mesmo em anos de chuva normal, como efeito residual de um El Niño anterior.

 

Relação com os incêndios

O estudo cruzou os indicadores de seca com dados de área queimada (base GFED4) e com o Índice Oceânico Niño (ONI), que classifica a intensidade dos eventos de El Niño. Os resultados:

  • Nas áreas onde a seca hidrológica coincidiu com a seca meteorológica, a correlação com o crescimento da área queimada foi alta.
  • Durante o El Niño de 2015–2016, classificado como “muito forte”, a área queimada média em regiões com seca extrema foi cerca de 244% maior do que em áreas sem seca.
  • O pico de área queimada (cerca de 150 mil hectares) ocorreu em áreas com seca hidrológica durante esse evento.

O fator decisivo, portanto, não é apenas a chuva que falta, mas a reserva de água que ainda resta no solo e no subsolo quando a próxima seca chega.

 

Um exemplo local: RESEX Rio Cautário (Rondônia)

No monitoramento contínuo da RESEX Rio Cautário, na fronteira entre Rondônia e Bolívia, o El Niño de 2023 aqueceu o Pacífico e reduziu as chuvas na Amazônia ocidental. Em 2024, já com o evento em enfraquecimento, o recorte monitorado registrou 56% mais focos de calor do que em 2023, com maior pressão de fogo dentro e no entorno da unidade de conservação.

El Niño

Figura – Aprendizados de proteção territorial e conservação da biodiversidade – UCBio, Jun 2026 – Curitiba – PR

 

Esse resultado mudou a forma de atuação na proteção da RESEX Rio Cautário: o monitoramento passou a considerar não só o ano do evento, mas também o ano seguinte.

Esse padrão está alinhado com o achado central do estudo: o efeito do El Niño sobre o risco de incêndio não desaparece junto com o evento meteorológico, ele se acumula e aparece com atraso. O monitoramento combina focos de calor (FIRMS), precipitação (CHIRPS) e índices de seca (ONI e reanálises de déficit hídrico com ERA5), a mesma lógica de integração entre indicadores meteorológicos e hidrológicos que o estudo recomenda.

 

Implicações para adaptação climática

Hoje, o monitoramento de risco de fogo na Amazônia se baseia principalmente em precipitação, umidade relativa do ar, velocidade do vento e índices de vegetação de curto prazo. Esses indicadores são muito importantes, mas não capturam o estresse acumulado na água subterrânea, o que pode se tornar um risco mais tarde.

Um plano elaborado de prevenção de incêndios, que combine indicadores meteorológicos e hidrológicos a partir de dados de satélite, estações locais e modelos de risco, tende a aprimorar a identificação de situações críticas e reduzir a vulnerabilidade ao fogo.

 

Implicações para financiamento climático

Monitoramento contínuo tem custo. Esse tipo de infraestrutura costuma ficar de fora dos mecanismos de financiamento climático, que em geral recompensam a redução de desmatamento já observada, não a antecipação de risco.

Incorporar o monitoramento hidrológico a esses mecanismos permite identificar áreas com déficit hídrico acumulado com antecedência e direcionar recursos de prevenção, como brigadas, aceiros e restrições de queimadas para os pontos de maior risco, antes do início do fogo. Isso também reforça a adicionalidade em projetos de carbono florestal onde evitar incêndios em áreas hidrologicamente vulneráveis é uma forma mensurável de proteção de estoque de carbono.

Recomendações com base no aprendizado local:

  • Estender o monitoramento de risco de incêndio para o(s) ano(s) seguinte(s) ao El Niño, não só para o ano do evento.
  • Incluir indicadores de água subterrânea (ou proxies como déficit hídrico acumulado) além de precipitação e índices de curto prazo.
  • Cruzar focos de calor com índices de seca (SPI, etc.) para localizar as áreas onde os dois fatores coincidem, é ali que o risco de incêndio é mais alto.
  • Priorizar recursos de prevenção — brigadas, aceiros, restrição de queimadas nas áreas com déficit hídrico acumulado, antes do início da estação seca.
  • Incorporar esse tipo de monitoramento como critério de risco em projetos de carbono florestal e mecanismos de financiamento climático, não só como resposta pós-incêndio.

 

[1] Toledo, N., Moulatlet, G., Gaona, G., Valencia, B., Hirata, R., & Conicelli, B. (2024). Dynamics of meteorological and hydrological drought: The impact of groundwater and El Niño events on forest fires in the Amazon. Science of the Total Environment, 954, 176612. – aqui.

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