O El Niño afeta especialmente o norte e leste da bacia amazônica, provocando redução significativa de chuvas. Os municípios mais afetados estão em Roraima, Amapá, partes do Amazonas e norte do Pará. O fenômeno intensifica a estação seca que naturalmente ocorre entre junho e setembro, prolongando e aprofundando a escassez de água.
O mecanismo por trás disso é a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), principal sistema gerador de precipitação no Brasil tropical. Durante El Niño, a posição e intensidade da ZCIT são alteradas pela reorganização da circulação atmosférica sobre o Pacífico, desviando umidade que normalmente chegaria à Amazônia. Complementarmente, as anomalias do Oceano Atlântico Tropical Norte também contribuem, reduzindo a umidade trazida pelos ventos alísios de leste.
Enquanto El Niño naturalmente traz aumento de temperaturas à região, esse efeito foi dramaticamente amplificado em 2023-2024. A temperatura média global estava 1,2°C acima dos níveis pré-industriais nesse período, e a Amazônia experimentou essa elevação basal acrescida dos efeitos diretos do El Niño.
A combinação de redução de chuvas + aumento de temperaturas produz um cenário de stress hídrico extremo. As plantas reduzem sua taxa de fotossíntese, absorvem menos CO2 da atmosfera, e sofrem danos fisiológicos que muitas vezes não se recuperam mesmo quando o regime de chuvas se normaliza.
Os dados municipais de seca são devastadores. De acordo com monitoramento do CEMADEN (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) e análises disponibilizadas pelo INMET:
Os rios amazônicos são como as artérias da bacia. Em 2023-2024, esses rios atingiram cotas que nem mesmo os cientistas com décadas de experiência tinham presenciado.
Estresse Fisiológico e Savanização – Quando a água escasseia persistentemente, as plantas da Amazônia, acostumadas a ambientes úmidos, sofrem stress fisiológico severo. Folhas fecham seus estômatos para conservar água, reduzindo a capacidade fotossintética. Menos fotossíntese significa menos captura de CO2.
Pesquisas indicam que esse stress deixa “cicatrizes” nas plantas. Mesmo quando as chuvas retornam à normalidade, essas árvores e plantas nunca se recuperam totalmente. É como se a floresta tivesse sua memória climática alterada permanentemente. Resultando em aumento de mortalidade e consequentemente emissões de CO2.
Os números ecológicos escondem histórias humanas. Em 2023, a seca afetou diretamente mais de 630 mil pessoas apenas no estado do Amazonas. Comunidades indígenas, ribeirinhas, e populações urbanas dependentes de rios para água potável, transporte e pesca enfrentaram crises humanitárias.
O ano de 2024 foi o pior em 26 anos. Secas extremas criam condições ideais para incêndios florestais. Em 2024, a Amazônia vivenciou a pior temporada de queimadas desde que o INPE iniciou o monitoramento sistemático em 1998. Números do desastre:
Pela primeira vez em décadas, a formação florestal foi o tipo de vegetação mais atingido pelo fogo, superando queimadas em pastagens. Isso significa que não apenas pastagens degradadas (que naturalmente ardem), mas a floresta em pé pegou fogo – um sinal de que as condições para incêndios selvagens se tornaram extremas.
A La Niña tipicamente traz o oposto. Historicamente, quando La Niña se estabelece, as regiões Norte e Nordeste do Brasil experimentam chuvas acima da média. O exemplo mais memorável foi 2012, quando uma La Niña forte causou uma cheia recordista no Amazonas. Rios transbordaram, comunidades foram alagadas, mas mananciais se recarregaram e a floresta recuperou parte de seu vigor. Episódios similares ocorreram em 2009 e 2021-2022.
No entanto, a La Niña atual é fraca. Isso significa que seus efeitos são desiguais e menos pronunciados geograficamente. Enquanto algumas áreas do norte amazônico podem se beneficiar de chuvas acima da média, outras regiões podem não receber alívio significativo.
Adicionalmente, a La Niña fraca é tipicamente de curta duração. Onde uma La Niña moderada pode persistir 12-18 meses, uma fraca frequentemente se encerra em 6-9 meses. Isso significa que qualquer benefício será temporário, especialmente considerando que La Niña deve dar lugar a neutralidade em 2026 e potencialmente a novo El Niño no segundo semestre.
Efeitos na Biodiversidade – A tendência global de maior frequência de eventos extremos (5 La Niñas em 6 anos) sugere instabilidade climática estrutural.
Independentemente da intensidade de El Niño ou La Niña, esses fenômenos afetam profundamente a biodiversidade amazônica:
Em Plantas:
Para a Amazônia especificamente, a La Niña fraca de 2025-2026 é ambígua: oferece uma pausa temporária da seca extrema, mas não representa uma solução durável.
A Amazônia está vivendo numa encruzilhada. De um lado, El Niño 2023-2024 um dos mais fortes já registrados amplificado pelo aquecimento global, causou a pior seca e a maior temporada de queimadas em décadas. Rios históricos atingiram cotas mínimas, 630 mil pessoas foram afetadas, e a capacidade regenerativa da floresta foi testada como nunca.
Do outro lado, a La Niña fraca atual oferece um respiro temporário, com chuvas esperadas acima da média no Norte. Mas essa pausa é breve: previsões apontam transição para neutralidade no início de 2026 e possível retorno de El Niño no segundo semestre.
O verdadeiro problema subjacente não é apenas oscilação natural. É a amplificação desses ciclos pelo aquecimento global, pela redução de 18% da cobertura florestal, e por ciclos de retroalimentação negativa que aproximam a Amazônia do colapso.
Fenômenos como El Niño e La Niña sempre existiram e sempre afetarão o clima amazônico. Mas vivemos numa era em que esses ciclos naturais são intensificados dramaticamente por ações antrópicas. Compreender esses fenômenos é o primeiro passo para preparar a Amazônia e o Brasil para os desafios climáticos que virão.
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