O clima da Amazônia não é um padrão imutável. A região que funciona como um dos maiores reguladores climáticos do planeta está submetida a variações naturais, mas cada vez mais intensas, que moldam não apenas o regime de chuvas e temperaturas, mas também a própria sobrevivência da floresta. Entre esses fenômenos globais que reescrevem o cenário amazônico estão El Niño e La Niña – oscilações naturais do sistema climático que ocorrem no Oceano Pacífico mas que ecoam dramaticamente nas florestas brasileiras.
Este artigo explora o que são esses fenômenos, como funcionam e especialmente quais foram seus impactos devastadores na Amazônia nos anos recentes.
El Niño e La Niña são manifestações opostas de um fenômeno maior conhecido como ENOS (El Niño Oscilação Sul), que representa a variabilidade natural do sistema climático terrestre. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (WMO), esses fenômenos ocorrem, em média, a cada dois a sete anos e, normalmente, têm duração de nove a 12 meses.
Fonte: El Niño and La Niña Years and Intensities
Embora esses fenômenos sejam inteiramente naturais, há um aspecto crítico: seus efeitos e frequência estão sendo dramaticamente amplificados pelo aquecimento global causado pelas emissões antrópicas, conforme retrata o gráfico do GGWS Golden Gate Weather Services na imagem acima.
Em março de 2024, a Organização Meteorológica Mundial (WMO) emitiu um comunicado histórico: o El Niño de 2023-2024 classificava-se como um dos cinco mais fortes já registrados em toda a história de observações climáticas. Para contextualizar: enquanto eventos moderados têm anomalias entre 0,5°C e 1,0°C, eventos considerados “super” El Niño ultrapassam 1,5°C. O evento de 2023-2024, portanto, foi classificado como “super El Niño” atingindo um pico de 2,0°C acima da média.
Ao longo de 2023, o planeta registrou sucessivos recordes de temperatura. O ano de 2023 tornou-se o ano mais quente já registrado em toda a história instrumental. A responsabilidade, porém, foi compartilhada. Essa distinção é crucial: o fenômeno natural de El Niño amplificou uma crise climática que é fundamentalmente causada pela queima de combustíveis fósseis e desmatamento, os gases de efeito estufa, que retêm o calor na atmosfera terrestre.
Após meses de enfraquecimento do El Niño, e um período de neutralidade, um novo fenômeno foi oficialmente confirmado: a La Niña de fraca intensidade. Em outubro de 2025, tanto a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) quanto o INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) confirmaram oficialmente a presença de La Niña.
A intensidade é um fator decisivo. Enquanto La Niñas fortes ou moderadas produzem efeitos pronunciados e geograficamente amplos, La Niñas fracas apresentam impactos desiguais e menos pronunciados em diferentes regiões.
Embora com um La Niña ativo, as temperaturas globais tendam a permanecer acima da média histórica porque o resfriamento provocado por La Niña é relativo apenas dentro dos padrões de ENOS; o aquecimento global de fundo tende a manter a temperatura basal elevada.
Segundo projeções do NOAA e da OMM (Organização Meteorológica Mundial), a La Niña fraca é temporária:
Isso significa que estamos não apenas vivenciando uma oscilação temporária, mas potencialmente entrando em um novo ciclo do ENOS, dessa vez com El Niño novamente ameaçando.
Um dado alarmante merece destaque: nos últimos seis anos (2019-2025), houve cinco episódios de La Niña confirmados. Essa frequência extraordinariamente alta contrasta nitidamente com os padrões dos 25 anos anteriores, que foram dominados por maior frequência de El Niño. Segundo a AON (corretora de resseguros) as perdas econômicas derivadas dessa maior frequência de La Niña (e El Niño) foram estimadas em R$ 1,8 trilhão globalmente em decorrência de secas extremas e chuvas torrenciais associadas.
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